Cultura

Um pouco de todos nós temos…

O Musical Heathers toca o solo, novamente, neste fim de semana em Atibaia. A montagem acontece no Teatro Artaud, referência na escola das artes cênicas e simbólico ponto de encontro intelectual da cidade. A peça coloca diante de nossos olhos aquilo que nós preferimos esconder. Com humor ácido, o espetáculo se mostra vivo ainda, desde dos anos 80, por ser um grande laboratório das inquietações que vivemos todos os dias.

Da popularidade à exclusão, da manipulação à violência simbólica e seletiva, nos encontramos em constantes conflitos dentro de uma necessidade desesperada de fazermos parte, do pertencimento que nos faz deixar de lado os nossos próprios valores. Um retrato desconfortável e ainda atual nos dias de hoje no Brasil e no Mundo. É claro que existe exagero! Mas quase todos cabem ou couberam em nossos pensamentos ou desejos. E isso não é sobre a peça. A peça é que fala sobre como nós mesmos conduzimos nossas mazelas, escondemos nossa falta de virtude e julgamos os supostos erros de outros que nós também cometemos. É sobre poder, sobre poder escolher, sobre impor o que se pode com a autoridade que se julga ter.

Na atualidade, discutimos bullying enquanto seguimos praticando. Falamos de saúde mental e violência nas escolas como quem conversa ao elevador e apenas nesse instante nos importamos. Heathers traz a luz sobre as tragédias particulares que nem sempre viram manchetes. A cultura da humilhação mudou de endereço, saiu dos corredores das escolas e cabe na palma da mão. Em questão de segundos, um comentário ou um vídeo amplia e tonifica o que deveríamos combater em nome de um suposto riso, de uma distração dos reais motivos. Curtidas não podem valer mais que a empatia. E nem a necessidade de aceitação pode se transformar em moeda social para perseguir, deixar de pertencer. O silêncio de pais, jovens, educadores e governos pode custar caro. Geralmente, custam vidas.

Em uma sociedade que normaliza a agressividade, as Heathers conseguem existir. E seguem existindo desde então em uma busca frequente por competição e permanente por validação. Constituída de pequenas violências, a rotina passa a se tornar quase insuportável. O espetáculo faz refletir sobre o que você permite, quais suas permissividades e com aquilo que você ainda pode estar contribuindo sem ter o devido entendimento.

O musical não traz respostas. Ele levanta perguntas. Provoca conversas difíceis não só para jovens em seus próprios conflitos, mas também para pais que talvez possam passar a acessar perguntas que ainda não fizeram aos seus filhos. Enquanto os educadores encontram motivos para debater o pertencimento e o impacto no desempenho escolar, a peça diverte ao mesmo tempo que incomoda e emociona. As resposta que não fomos capazes de dar saltam à garganta. Um bombardeio de emoções afloram. E não é somente sobre os anos 1980, é sobre o que desde lá deixamos construir ainda hoje.

Para os espectadores que em 27 de junho cruzaram mais de 500km, vindos de Uberaba/MG e Rio de Janeiro/RJ, em Heathers entregou muito mais. Deu voz a dilemas sociais que crescem em períodos de conexões instantâneas. Talvez a maior lição do espetáculo é que ninguém devesse precisar gritar ou confiar apenas em um diário para ser entendido. Muito menos cruzar um país para ter voz e ser respeitado. Chegou a hora, agora, de mais pessoas terem contato com esse Musical.

Sempre às 20h, no Teatro Artaud, em Atibaia.

🗓️ Novas sessões:
• 10/07 (sexta), 20h
• 08/08 (sábado), 20h
• 15/08 (sábado), 20h

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