Alimento e história
Contação de histórias vira ferramenta para enfrentar resistência alimentar entre crianças em Atibaia
Uma iniciativa que mistura teatro, ludicidade e alimentação tem circulado por escolas municipais de Atibaia desde a última semana. Voltado a alunos da pré-escola, o projeto aposta na contação de histórias como estratégia para lidar com um desafio comum nas famílias e no ambiente escolar: a rejeição de alimentos considerados saudáveis, especialmente frutas.
A proposta é simples, mas parte de um problema recorrente. Segundo especialistas em nutrição infantil, a resistência a novos alimentos — conhecida como neofobia alimentar — costuma surgir ainda na primeira infância e pode se estender por anos, influenciando padrões alimentares na vida adulta. Nesse contexto, abordagens impositivas tendem a ter pouco efeito, enquanto estratégias lúdicas mostram maior adesão.
É nesse ponto que entra a narrativa “A Menina que Não Gostava de Frutas”, utilizada nas atividades. Durante a apresentação, alimentos ganham voz e personalidade, criando um ambiente simbólico que permite às crianças reinterpretar suas próprias experiências com a comida. A linguagem acessível, aliada ao uso de bonecos e fantoches, busca reduzir a resistência inicial e estimular a curiosidade.
Ao todo, mais de 2.500 crianças devem participar das sessões ao longo de abril e maio. As apresentações são realizadas em grupos relativamente pequenos, o que favorece a interação direta — um fator considerado essencial por educadores para a internalização de novos comportamentos na infância.
Embora iniciativas desse tipo não sejam inéditas, elas refletem uma tendência crescente de integrar educação alimentar ao cotidiano escolar de forma transversal, em vez de tratá-la apenas como conteúdo teórico. A escola, nesse modelo, passa a atuar não só como espaço de ensino formal, mas também como ambiente de formação de hábitos.
Ainda assim, especialistas apontam que ações pontuais têm impacto limitado se não houver continuidade em casa. A construção de hábitos alimentares depende de repetição, exemplo familiar e acesso regular a alimentos de qualidade — fatores que extrapolam o alcance de projetos educativos.
Mesmo com essas limitações, experiências baseadas em narrativa e interação têm ganhado espaço justamente por abordar o comportamento alimentar de forma menos normativa e mais experiencial. Em vez de impor regras, a proposta tenta despertar interesse — um caminho que, na infância, costuma ser mais eficaz do que a obrigação.
