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Atibaia ‘esquece’ o Dia da Consciência Negra

Atibaia ‘esquece’ o Dia da Consciência Negra, e esse silêncio institucional revela muito mais do que uma simples ausência na agenda pública divulgada e trocada por um evento esportivo que poderia ter outra data. Relegar a um pano de fundo, esquecendo de um trabalho voltado à educação, à cidadania é apagar da história que a cidade resistiu à abolição da escravatura. Registros de conflitos, tensões sociais e movimentos locais contrários ao fim do regime escravocrata ocorreram e esses são lembrados quando, hoje, a cidade deixa de tratar como plano de governo o 20 de novembro, ignorando uma parte fundamental da própria identidade municipal. A data não é apenas simbólica: é um convite à memória, ao debate e ao reconhecimento das desigualdades que ainda hoje estruturam o cotidiano brasileiro.

A falta de incentivo a ações educativas e culturais reforça um ciclo de apagamento. De um olhar que pode ser entendido como espaço apenas do periférico, do além rodovia. Quando o poder público não organiza e as associações não tem voz para propor e divulgar iniciativas ligadas ao tema, a mensagem que parece ser enviada à população é que debate, entendimento, não é prioridade em um país tão desigual. Em uma sociedade que convive com desigualdades tão profundas, em renda, acesso ao ensino, oportunidades de trabalho e representatividade, silenciar a pauta racial significa contribuir para a manutenção do problema. A história mostra isso ao longo do tempo. O que não existe não pode ser enfrentado. Talvez, não seja essa a dinâmica desejada. Mas é a interpretação possível que foi deixada ser percebida por muitos.

O impacto social desse vazio é imediato. Jovens da cidade deixam de ter contato com referências, histórias e manifestações culturais que poderiam fortalecer sua identidade, ampliar repertórios e promover inclusão. A ‘Congada chora’, perde seu sentido se hoje poderia ser lembrada e proclamada e sequer seus motivos foram lembrados. Outros projetos poderiam surgir em escolas, centros culturais e espaços comunitários simplesmente não aconteceram ou foram esvaziados pelo poder da falta de divulgação. O resultado é, mais uma vez, a repetição de uma estrutura social que naturaliza diferenças e ignora injustiças históricas. Cada vez mais o cidade grande invade Atibaia e seus moradores antigos ‘fogem’. Estamos evoluindo ou apenas repetindo erros de outros? Para uma cidade que se orgulha de seu crescimento e de sua diversidade, essa omissão não condiz com o discurso de modernidade possível. Não querer ser igual é um pensamento que precisamos combater.

Atibaia tem potencial para ser referência em políticas públicas voltadas à memória, à cultura e à igualdade racial, justamente porque carrega em seu passado capítulos que merecem ser revisitados, não para perpetuar culpas, mas para construir novos caminhos. Os centros culturais precisam e podem reconhecer a trajetória de todos e não apenas dos imigrantes, dos bandeirantes. Reconhecer o Dia da Consciência Negra é um gesto básico de responsabilidade histórica e de função social de governos que enxergam que podem fazer mais. Não fazê-lo, no entanto, implica aceitar que o passado siga moldando o presente sem contestação. O erro do ano anterior poderia ter sido corrigido, não foi. A oportunidade se perdeu. O pão encontrou o circo. E, para uma cidade que pretende avançar, esse é um retrocesso que não deveria passar despercebido.

Um comentário sobre “Atibaia ‘esquece’ o Dia da Consciência Negra

  • Maravilhoso e cirúrgico texto!
    Espero que chegue a quem tem que refletir sobre seu papel como representante de órgão público. Não é opção, é cumprimento de leis tratar das questões raciais – do negro e do indígena, em especial, tão aviltados pela colonização.
    Parabéns pela provocação extremamente necessária

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